Eu sempre tive vontade de visitar um campo de concentração. Aliás, vontade não é uma palavra muito boa. Eu sempre achei que seria uma experiência marcante e enriquecedora. Quando eu fui a Polônia, visitei Auschwitz e depois achei que nenhuma experiência seria tão impactante.

Mas a visita a Terezín é muito diferente da visita a outros campos espalhados pela Europa. Em primeiro lugar porque Terezín foi usado como um campo propaganda, e em segundo porque ele foi construído no lugar de uma fortaleza que já existia.

Quando eu estava fazendo trabalho voluntário em Praga, resolvi ir para Terezín com duas amigas, o que foi um choque cultural em si. Uma delas é montenegrina, e tirou fotos da cela de Gavrila Princip, dizendo que ele era considerado um herói nacional no seu país. Eu só tinha tido dele uma história, de que ele era um louco nacionalista, e é sempre bom ter suas visões contestadas. A outra era taiwanesa, e aprendeu muito sobre a Segunda Guerra Mundial na Ásia, mas muito pouco sobre o que aconteceu na Europa. Fiquei pensando em quão pouco eu sabia da guerra lá, pensando que a guerra começou na Europa e de alguma forma o que aconteceu lá nos parece mais importante. Aprendemos como o Japão cometeu crimes de guerra no pacífico e depois sofreu crimes de guerra na forma das duas bombas atômicas, ponto. Tivemos muitas informações para trocar no ônibus indo para lá.

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Quando chegamos em Terezín, começamos a visita na Pequena Fortaleza, onde fizemos um tour em inglês, incluído no ingresso combinado a vários locais da guerra.

A fortaleza foi construída durante o Império Austro-Húngaro ao norte de Praga. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha invadiu e ocupou a então Tchecoslováquia. A República Tcheca foi transformada no protetorado da Boêmia e da Morávia. A Pequena Fortaleza de Terezín foi logo utilizada como prisão, tendo principalmente prisioneiros políticos. Ela continuou sendo usada como prisão durante o Holocausto.

Em novembro de 1941, a Fortaleza Grande foi adaptada para uso como um gueto. Ele era apresentado como uma cidade-modelo para estabelecimento da população judia que era deportada de vários países na Europa. A cidade foi apresentada para os judeus da Tchecoslováquia como uma comunidade onde eles poderiam viver em segurança, o que fez com que muitos fossem para lá voluntariamente. Na verdade, ele era um campo de concentração.

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As casernas que foram pensadas para acomodar 7 mil soldados chegaram a acomodar 58 mil prisioneiros de uma vez, segundo as estatísticas oficiais. Mais de 33 mil pessoas morreram de fome, doenças, hipotermia e assassinadas pelos oficiais. No outono de 1944, o campo foi liquidado, e todos os prisioneiros foram deportados para campos de extermínio.

 

A Vida Cultural em Terezín

Depois da pequena Fortaleza, entramos na cidade para visitar outros lugares incluídos no ingresso, como o crematório, o corumbário, a sala cerimonial, o Museu do Ghetto e os alojamentos de Magdeburg, que contam sobre a vida cotidiana lá dentro e sobre a produção cultural em Terezín.

Terezín foi propagandeada pela sua rica vida cultural, embora no início não houvesse lá um único instrumento musical. Dentro do campo os prisioneiros organizavam palestras, concertos, recitais, aulas de desenho e até uma revista. Eles também tentaram organizar aulas para as crianças do campo sob o disfarce de trabalho em alguma atividade cultural. As crianças de Terezín produziram mais de quatro mil desenhos, que foram encontrados em uma mala dez anos depois da guerra. Alguns deles estão expostos no Museu do Ghetto, em Terezín, alguns na Sinagoga Pinklas, parte do museu judaico em Praga, e parte no Yad Vashem em Jerusalém.

Desenhos das crianças de Terezín
Desenhos das crianças de Terezín

Alguns contos e poemas produzidos pelas crianças também foram preservados. Temos vários exemplos de arte produzida dentro do campo, como os desenhos de Malva Schalek mostrando o dia-a-dia do campo, aquarelas de Norbert Troller e uma ópera, O Imperador de Atlantis ou a Recusa da Morte, composta por Viktor Ullmann. Um cd de músicas compostas no campo foi lançado nos anos 90.

É importante lembrar que essa produção conseguiu existir porque os nazistas queriam fazer uma propaganda do campo, mas principalmente por causa da garra dos prisioneiros lá dentro, que lutaram para produzir o que era permitido e o que não era em meio à fome, a doenças e ao medo de ser mandado para um campo de extermínio.

Desenhos de Malva Schalek
Desenhos de Malva Schalek

A Visita da Cruz Vermelha em 1944

Em 1944, o governo alemão permitiu uma visita da Cruz Vermelha a Terezín para acabar com os rumores sobre a existência de campos de extermínio. Alojamentos especiais foram construídos para a visita, com quartos de criança. Para resolver o problema da superlotação, milhares foram mandados para Auschwitz. Lojas e cafés falsos foram criados.

Os representantes visitaram uma parte escolhida pelas autoridades alemãs, e aparentemente não tentaram ver outros locais. Eles fizeram perguntas para as pessoas que encontravam, mas foram ignorados, conforme ordens dadas pelos oficiais antes da visita. Eles viram um julgamento – que pretendia mostrar Terezín como uma cidade de verdade, governada pelos judeus – uma partida de futebol e uma ópera infantil.

Os judeus do campo não podiam conversar com os inspetores, mas tantaram mostrar o engodo. Eles tocaram o Réquiem de Mozart e uma canção alemã que tinha sido popular alguns anos antes, chamada Eu me fiz bela para você. Apesar disso, os inspetores saíram com uma impressão boa da cidade. Em seguida a essa visita, os nazistas gravaram um filme propaganda no lugar, do qual trechos ainda existem.

 

Como visitar

Hoje o campo pode ser visitado facilmente a partir de Praga. O trajeto pode ser feito de ônibus, que parte da plataforma 7 da estação Praha Holešovice. O ônibus para na Fortaleza Pequena, e o nome da parada é Bioveta. O ingresso combinado para a Fortaleza Grande, a Pequena e os alojamentos em Magdeburg custa 215 coroas tchecas para adultos e 165 para estudantes. O bilhete inclui um tour com guia.

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Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

6 comentários

  1. Muito impressionante a história desse lugar! Você já foi em outro campo de concentração?
    E a sinagoga Pinklas, você recomenda?

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