Procurando um lugar para ficar em Sarajevo, eu encontrei o War Hostel, um albergue feito para simular como era um apartamento na época do cerco, onde você dorme em cobertores militares originais, acende a luz de uma lâmpada feita de latinha usada para prática de tiros e onde algumas janelas são tampadas como se fazia na época. Toda noite eram passados documentários e filmes, eles organizavam tours e simulações. O mais interessante, porém, era que a família que mantém o hostel sobreviveu ao cerco.

Como eu gostaria de conversar sobre a guerra, mas sabia que é um assunto delicado que não dá para discutir com qualquer um, achei que seria o lugar perfeito para mim. Realmente foi. Logo que cheguei vi que o albergue era coberto de notícias de jornais e reproduções de graffiti famosos. No banheiro ainda existia o antigo mecanismo feito de garrafas pet que eles usavam para pegar água da chuva (embora o banheiro atual tenha água corrente). Em um quarto, ficava o carrinho de mão modificado que eles usavam para buscar lenha.

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Arjian no bunker do War Hostel
Arjian no bunker do War Hostel com uma arma improvisada feita pela resistência da cidade. Elas às vezes explodiam nos braços dos defensores.

Eu fiz dois tours com eles, o primeiro com o Arijan no bunker. Ele nos levou para um pequeno quarto subterrâneo e pediu para nos sentarmos. Ele disse que deveríamos esperar a sirene, então nos levantar e atravessar a cortina.

O que seguiu foi uma performance de duas horas e meia, parte teatro, parte palestra, parte exibição de trechos de filmes e documentários. Com isso, ele tenta responder às questões que mais frequentemente lhe perguntam sobre a guerra.  Mesmo se você ficar lá e não tiver como ou não quiser fazer um tour, vá ver um filme no bunker e peça para ele te mostrar o museu do bunker. Ele vai entender.

O Arijan planejou esse tour para responder muitas das perguntas que turistas tinham sobre o cerco, como quem exatamente eram os atacantes e defensores da cidade, e teve ajuda de vários sobreviventes e mesmo de alguns soldados da ONU. Ele tem material em vídeo, e conta as experiências da sua família durante o cerco. Em um momento, ele nos mostrou um vídeo em que ele, aos dois anos de idade, brinca na frente da casa. Ele nos contou que o pai dele ia para o front carregando essa fita, com medo de que a casa fosse bombardeada e ele não tivesse nada para se lembrar do filho. Durante o filme, que dura só alguns minutos, você ouve tiroteio o tempo todo. Outro mostrava uma explosão que aconteceu na rua, corpos destroçados sendo colocados em um carro. Uma mulher é levantada pelos braços e sue rosto se curva de um jeito antinatural, e você imediatamente sabe que a parte de trás de sua cabeça não está lá. O Arijan disse “essa era minha vizinha”.

Se você quer saber mais sobre o cerco, eu fiz um post com algumas informações aqui.

Faça burek, não guerra
Faça burek, não guerra

O segundo tour foi com Jasmin, que nos levou para as colinas de Sarajevo. Esse é um lugar muito interessante, mas não recomendo a ninguém ir sem um guia experiente: as colinas ainda estão cheias de minas terrestres. 

A placa está em cirílico porque não está na Federação da Bósnia, mas na República Srpska, uma das entidades do país. Depois da guerra, a Bósnia foi dividida entre Bósnia e Herzegovina, a entidade dos bósnios e croatas, e República Srpska, de maioria sérvia. Parte de Sarajevo, conhecida como Sarajevo Istočno, pertence a esta República. Os criminosos que quase destruíram o país estão, em sua maioria, livres.

Grande parte da Bósnia ainda está coberta por minas
Minas terrestres são os soldados perfeitos, segundo Jasmin. Elas não dormem, não se distraem, não se rendem. Elas esperam por você para sempre.

Jasmin lutou na linha de frente. Ele não era um soldado, mas a Bósnia também não tinha um exército e eles precisavam de todos que tivessem condições de lutar para se proteger da agressão Chetnik. Alguns anos depois da guerra, ele começou a levar pessoas nos locais onde ele tinha lutado por insistência do filho. Ele disse que achou a idéia louca a princípio, já que ele achava que ninguém ia achar aquilo interessante. “Vocês acham interessante?” ele perguntou olhando para a gente. Pouco depois ele completou: “Alguém tem que contar o que aconteceu”.

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E ele contava. Em um momento, ele apontou para um bunker subterrâneo e disse que seu melhor amigo tinha morrido ali, depois de levar um tiro na sua frente.

Ele nos levou então à linha de frente, mostrando vários bunkers usados pelos inimigos e pelos defensores da cidade. Alguns tinham sido bombardeados pela OTAN, mas ainda podíamos achar balas, pedaços de uniformes e mesmo artilharia pesada.

O trabalho de limpar as montanhas em torno de Sarajevo é feito por um pequeno número de operários ganhando um salário ridículo. Jasmin nos contou de dois turistas que perderam pernas perto de onde estávamos, teoricamente território seguro. Em um momento, ele levantou uma pedra e mostrou uma mina. Ele disse que depois de tanto tempo, ela provavelmente tinha enferrujada e não explodiria mais, e então levantou a voz e disse MAS NÃO ENCOSTA, TÁ?

Depois disso, nós não demos um passo nas colinas que não fosse pisando exatamente onde ele pisava. Às vezes ele olhava para trás sorrindo e dizia “Aqui é seguro. Mas não desviem do caminho”, e ria. Eu tinha bastante certeza que parte daquilo era brincadeira. Mas continuava pisando onde ele tinha pisado.

Olhe o uniforme jogado no meio da terra
Olhe o uniforme jogado no meio da terra
Artilharia pesada. Depois de tantos anos, provavelmente não é explosivo mais... Mas ninguém tá afim de conferir
Artilharia pesada. Depois de tantos anos, provavelmente não é explosivo mais… Mas ninguém tá afim de conferir

O próximo destino foi o antigo observatório da cidade, onde foi travada uma batalha entre os defensores e os atacantes da cidade.

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O antigo hotel tinha uma vista da cidade, e por isso foi usado por snipers.

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Sarajevo nas mãos dos seus atacantes
Sarajevo nas mãos dos seus atacantes

Nos caminhos entre um lugar e outro, o Jasmin contava casos sobre a época. Ele contou sobre como ele e a família às vezes comiam grama. Quando era inverno, e não conseguiam achar grama, tinha para vender no mercado, em meio a outros stands, vazios.

A antiga pista de Bobslead foi construída para as Olimpíadas de 1984, da qual o povo de Sarajevo se orgulha muito. Enquanto eu estava lá, um guia descreveu as olímpiadas como “a única coisa feliz sobre a qual podemos falar com os turistas”. Durante a guerra, também ela foi usada como posto de observação e para snipers. Hoje, está coberta por graffiti.

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Na segunda parte do tour, fomos levados ao Túnel, chamado de Túnel da Esperança. Ele foi construído por baixo do aeroporto, e era a ligação da cidade com o resto do país. A história do túnel é interessante – embora algumas pessoas tenham apontado que atravessá-lo não era de graça e ele foi muito usado por contrabandistas que se aproveitavam da situação da guerra para enriquecer, vendendo comida a vinte vezes o preço do lado de fora.

Jasmin ficou do lado de fora. Ele disse que entrou no túnel durante a guerra, e não tinha interesse em  voltar. Você só pode andar uma pequena parte do túnel, de cerca de 20 metros, e ele é iluminado, de uma altura adequada, seco, não exatamente como era na época.

O túnel era visitado por grupos com ares solenes, como os campos de concentração da segunda guerra. Ele é frequentemente colocado nas listas de melhores lugares para visitar em Sarajevo. No entanto, depois de visitar as colinas, vazias e autênticas, mesmo que um pouco perigosas, ver um lugar tão plastificado, alterado, foi incômodo. A melhor parte, como sempre, foi a história tragicômica que Jasmin contou de sua experiência no túnel.

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Dirigindo de volta para o albergue, Jasmin disse que às vezes ele tinha pesadelos com a guerra. Às vezes ele sonhava que ele estava de volta nas trincheiras, dormindo em um bunker com trinta homens, às vezes comendo ração de cachorro, às vezes grama, o que ele encontrasse. Então ele voltava para casa e descobria que ela tinha sido bombardeada, e sua esposa e filhos estavam mortos.

Outras vezes ele sonhava com coisas que realmente aconteceram. Essas me deram pesadelos por semanas.

 

Clique aqui para o link no Trip Advisor, para quem se interessou pelos tours.

E aqui para o link para o War Hostel no Hostel World – corra, eles só tem oito camas disponíveis!

Obs: Essas recomendações são baseadas nas minhas experiências em Sarajevo. Eu não recebi nenhuma forma de remuneração ou desconto.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

12 comentários

    1. Pois é, infelizmente são outro produto da guerra. Mas quando eu estava em Sarajevo, o guia do fwt chamou as olimpíadas de inverno de o único evento feliz do qual ele podia falar que aconteceu em Sarajevo. So they have that going, which is nice ; )

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  1. Que privilégio aprender sobre a guerra com as pessoas que viram de primeira mão. Eu me interessei muito por Sarajevo.

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