Quem já ficou em um albergue sabe que as perguntas típicas para fazer para as pessoas que você comece geralmente são “há quanto tempo você ta viajando?”, “ para onde você já foi?”, e “para onde você vai?”. Coisas irrelevantes como nome ficam para depois. Eu passei agosto desse ano inteiro em albergues, e respondi essas perguntas algumas centenas de vezes. Quando falava que tava planejando ir para a Bósnia, muitas vezes alguém que já tinha ido começava a falar sobre o albergue em que eles tinham ficado, o Majda’s, e sobre o tour louco de algumas cidades perto feito pelo irmão dela. Todo mundo era bem taxativo em dizer que eu tinha que ficar lá e fazer o tour, mas ninguém queria me contar detalhes, falando que ia estragar a surpresa. Isso aconteceu tantas vezes que eu simplesmente marquei o albergue e o tour resolvendo confiar na multidão.

 

A hospitalidade no Majda’s era realmente impressionante. Nunca vi alguém chegar lá e não encontrar pelo menos uma fatia de bolo esperando. De manhã, eles fazem cafés da manhã tradicionais, com salsichas, ovos, french toasts, torradas de abobrinha e alho… Todo mundo recebe um mapa com dicas da Majda e ela frequentemente conta sobre a sua vida ou mostra o vídeo da ponte de Mostar sendo explodida. Eles tem um grupo no facebook chamado “one more night”, das pessoas que foram para Mostar e todo dia acabavam resolvendo ficar mais e iam na recepção perguntar se tinha como ficar mais uma noite.

 

Finalmente chegou o dia de fazer o tour louco com o Bata, o irmão da Majda. Ele chegou para nos buscar no albergue com uma van que ele fazia dançar na rua estreita do albergue. Ele mandou que a gente entrasse na van, mas quando um menino alemão tentou colocar um cinto ele logo zombou “This is Balkan, my friend” e mandou que ele arredasse para que ele pudesse colocar 13 pessoas em uma van onde cabiam 10. No dia anterior foram 16.

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O Bata nos levou primeiro em Kravica, um lugar conhecido pelas cachoeiras, em que nós nadamos. Ele mostrou as opções, os lugares em que dava para pular da pedra, os lugares que a gente podia escalar pela vista, os melhores lugares para relaxar. Nós também almoçamos lá.

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A próxima parada foi Počitelj, uma antiga cidade medieval quase na fronteira com a Croácia. Ela foi construída por seu lugar estratégico, prosperou no governo otomano, com a construção de escolas, mesquitas e banhos públicos, e entrou em rápida decadência na época do império otomano. Você ainda pode visitar as mesquitas e castelos da cidade.

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Na época da guerra da Bósnia, Počitelj quase foi destruída, e a maioria dos seus habitantes partiu para o exílio. Hoje a cidade tem apenas três habitantes, dos cerca de mil de antes da guerra.

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Em 1996, a cidade foi declarada um dos 100 monumentos no mundo em maior risco de destruição pela universidade de Yale, e em 2000 virou patrimônio da humanidade pela UNESCO. Desde então, tem sido feito um esforço maior em preservá-la.

A última parada foi Međugorje, o maior centro de peregrinação para cristãos na Bósnia. Eles acreditam que Maria teria aparecido no mosteiro. Međugorje também foi lugar de massacres promovidos pelos fascistas croatas contra a população ortodoxa durante a segunda guerra mundial.

 

Sinceramente, o que não falta em Mostar são tours para esses três lugares. Mas o que foi especial foi ouvir o que o Bata contou sobre o seu país. A sua experiência na guerra, o que foi ver nos jornais o vídeo da ponte explodindo, o exílio, o choque cultural reverso de voltar para a Bósnia. Ele nos apontava prédios e dizia “tá vendo aquela antiga escola de música? É só uma casca. A cidade é turística, então não pode ter tantos prédios destruídos. Mas muitos foram reconstruídos só do lado de fora, por dentro, ainda é uma ruína”. E foi isso que teríamos visto sem ele, as cascas. Ele nos contou sobre a corrupção, sobre o ódio religioso, sobre o ensino segregados nas escolas de Mostar, onde crianças cristãs e muçulmanas aprendem em horários diferentes do dia. “Eles chamam isso de Duas Escolas Sob o Mesmo Teto”, ele disse, “como vocês chamariam?” “Apartheid”, foi a minha resposta.

 

Nós comemos uma refeição típica que uma mulher nos preparou com o que cresce no seu quintal, discutimos política e religião e corremos para entrar em uma van em movimento – meu joelho ficou roxo por semanas. De noite eu ainda conseguia ouvir o Bata gritando com a gente “Don’t just stand there looking cute!”.

Se você se interessou pelo albergue da Majda, clique nos links para ver a página deles no Hostelworld ou no Hostelbookers. Para fazer o tour, você pode se inscrever chegando lá ou mandar um email. Você pode fazer o tour mesmo se estiver ficando em outro lugar.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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