Já escrevi alguns posts sobre como foi para mim a experiência de morar em Bologna, mas queria escrever um focando sobre como é estudar na Universidade de Bologna. Muitas coisas me chamaram a atenção lá, e acho que notar essas diferenças e refletir sobre como é diferente ser estudante aqui foi um dos grandes benefícios que tive no intercâmbio.

 

Mensalidades

 

Conversar com pessoas de outros países sempre me faz pensar que privilégio é estudar em uma instituição que não cobra mensalidades. A UFMG tem mil defeitos, inclusive de o vestibular acabar excluindo muita gente que não teve condições de estudar em uma escola privada. Mas o problema de universidade ser elitista existe em muitos lugares e não é exclusividade nossa. Conversei com muitos alunos americanos que começam a vida devendo meio milhão de dólares e eles não acreditam quando eu falo que no Brasil você pode estudar de graça nas melhores universidades do país. Embora nosso modelo de universidade precise ser mais inclusivo, também temos que reconhecer que já temos algo que estudantes no mundo todo lutam para conseguir. Na Itália, as anualidades não são completamente inacessíveis para quem mora lá e ganha em euro, mas eles também ficam impressionados com isso.

 

Aulas

Algo que eu percebi nas aulas na Unibo é que os alunos escrevem nos cadernos o tempo inteiro. Claro que eles ainda respondem uma mensagem de texto, fazem um comentário ou outro com um amigo, mas nunca vi ninguém que está obviamente fazendo outra coisa o tempo inteiro da aula.

Quando os alunos não entendem uma matérias, vários pedem bibliografia extra para o professor, mesmo quando o assunto não vai cair em nenhuma prova.

Fiquei pensando que no Brasil a gente reclama muito dos professores picaretas, mas nós também somos estudantes picaretas e achamos bonito fazer o mínimo necessário. Em defesa nossa, porém, tenho que falar que os alunos na Itália devem fazer bem menos matérias. A maioria das pessoas com que eu conversei faz 3-4 matérias por semestre, enquanto eu fazia o dobro no Brasil. Então eles tem bem mais tempo para se dedicar a cada matéria. E os créditos comuns europeus (ECTS) dão valor ao tempo que o estudante dedica à matéria em casa, o que eu acho justo.

Eles também tem mais liberdade de escolha das matérias que querem estudar. Entre as pessoas que eu conheço no Brasil, as que estudam história estão entre as que mais podem escolher as próprias disciplinas, mas ⅔ delas são de obrigatórias. Na Itália, existem poucas obrigatórias, alguns blocos de disciplinas (por exemplo, você tem que escolher duas dessa lista, duas dessa outra) e muitas matérias livres. Inclusive, os alunos de humanas tem grande liberdade para pegar cursos em outros departamentos. 

Por fim, outra grande diferença é a possibilidade de fazer a prova como não-frequentante. Você pode fazer a prova final do curso como aluno frequentante, o que significa que você faltou no máximo duas vezes, ou como não-frequentante. Geralmente você tem uma carga de leitura maior, mas acho uma ótima opção. Se você acha que o método didático de um professor simplesmente não funciona para você, ou se você quer pegar uma matéria mas tem um compromisso e sabe que não vai poder assistir todas as aulas, tem uma opção. Como você pode alterar o seu plano de estudos em qualquer momento do semestre, você pode fazer uma matéria, perceber que não se dedicou a ela o tanto quanto gostaria, removê-la do plano sem ser reprovado por isso, matricular-se de novo em outro semestre, estudar por conta própria e fazer a prova como não-frequentante.

 

Infra-estrutura

A diferença de infra-estrutura é enorme. As bibliotecas tem uma quantidade enorme de livros, inclusive muitos livros novos, e são divididas em diversos prédios. Além disso, é fácil encontrar livros em outras bibliotecas da cidade, inclusive livros especializados. Todas as salas tem computadores e projetores. E elas tem ar condicionado. Na Fafich tem sala que não tem nem ventilador, o que torna impossível prestar atenção na aula com um calor de mais de trinta graus.

Na início do meu semestre em Bologna, as salas estavam tão lotadas que muita gente tinha que se sentar no chão. Isso porque você pode adicionar ou largar qualquer curso a qualquer momento, então muita gente se matricula em várias matérias para escolher as que compensam.  Isso lá é normal e encorajado, e acho interessante apesar desse incômodo no início das aulas.

 

Provas

Em todas as matérias que eu estudei, eu tinha uma lista de entre 5 a 9 livros para ler para me preparar para o exame. Todos os estudantes ficavam do lado de fora da sala do professor, esperando a sua vez, e conversando enquanto isso. Algo que me chamou a atenção nessas conversas é que ninguém nunca pergunta se você leu os livros. Todo mundo tinha lido os livros inteiros. É a primeira pergunta que a gente faz no Brasil, mesmo quando tudo que você deveria ter lido eram alguns xerox.

A maioria das provas na Unibo é oral. Isso era muito estranho para mim, mas os alunos com quem conversei sobre isso aprovavam, porque achavam que te preparava para falar em público e apresentar uma tese, por exemplo. Outros reclamavam que sentiam falta de treinar a escrita  e preferiam ter que entregar trabalhos.

A maioria das minhas provas foi bem aberta. Um dos professores me pediu para falar o que mais me interessou em cada livro, desenvolvendo os temas. Outro, que sabia que eu era brasileira, pediu que eu dissertasse sobre um dos livros, Imperialismo e Cultura, falando de como ele poderia se aplicar para o caso do meu país, além de fazer perguntas sobre outros livros. Outro deu a opção de fazer a prova oral ou fazer uma tesina, um trabalho de quinze páginas sobre o tema da história das teorias de conspiração, usando o que a gente aprendeu na matéria. Por último, uma das minhas provas foi boba e decoreba, o que foi uma surpresa porque a matéria não era nada assim. Mas a prova que eu fiz era especial para alunos de intercâmbio e estava sendo aplicada por assistentes, então talvez eles tenham achado que estavam facilitando para a gente.

 

Comunidade Internacional

Bologna é a cidade italiana que mais recebe estudantes estrangeiros de intercâmbio, então era difícil pegar uma matéria que não tivesse gente de vários países. Também existiam matérias ofertadas em várias línguas, o que eles estão tentando expandir. Eles querem começar a ofertar mais programas de mestrado e doutorado inteiramente em inglês.

Meus professores passaram alguns livros de história cujos originais eram em inglês ou francês, e, em todos esses casos, eu encontrei livros na língua original na biblioteca. Achei isso fundamental e algo que falta nas universidades brasileiras, onde lemos traduções. Alguns dos meus professores reclamam de como traduções são mal-feitas e alguns trechos de textos importantes acabam falando o contrário do que deveriam, mas ainda assim só costumamos ter acesso ao original quando o professor manda um pdf.

 

Aproveitar a cidade

Uma das grandes vantagens de estudar em Bologna é a facilidade em aproveitar a cidade. Se você mora razoalmente perto do centro, você vai andar para todo lado, e como eu sinto falta de andar 15, 20 minutos para a aula ao invés de perder três horas no ônibus todo dia.

E sempre tem algo de graça rolando em Bologna. Além disso, alunos da universidade tem entrada gratuita no Museo Archeologico, no Museo di Arte Moderna, no Museo Medievale, no Palazzo Pubblico, na Pinacoteca Nazionali, nas Collezioni Comunalli di Arte, na Casa Morandi, no Museo della Musica, no Museo Civico d’Arte Industriale, no Museo per la Memoria di Ustica, além de descontos no Museo di Storia di Bologna e os geralmente já gratuitos Biblioteca Salaborsa e Museo della Specola.

 

Formatura

Por fim, queria falar da formatura porque achei os hábitos dos alunos aqui bem divertidos. Quando os alunos se formam, eles usam coroas de louros na cabeça (o verbo para se formar é laurearsi), e muitas vezes vão fazer trotes pela cidade. Os amigos deles também costumam colocar fotos deles nos muros da universidade com mensagens bem humoradas.

 

Clique aqui para ler todos os posts com dicas sobre morar e estudar em Bologna.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

12 comentários

  1. Oi, adorei os seus comentários. Somos um país de picaretas mesmo, onde todo mundo, aluno e professor, acha bonito fazer o mínimo possível. 5 a 9 livros para ler por matéria? Aqui o professor ia ser tachado de em noção e a maioria dos alunos nem pensaria em ler.

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    1. Oi, Larissa, tudo bem? Fui pela UFMG, no programa de intercâmbio da faculdade. Se é o seu caso, melhor olhar com sua universidade. Se não, olha no site da Unibo os processos seletivos de graduação e mestrado, vai ter toda a informação lá.
      Boa sorte!

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