Em 1922, quando James Joyce publicou Ulisses, ele não podia ter idéia que estava dando origem a maior festa do mundo dedicada a um livro. Hoje o romance é considerado um dos mais importantes do modernismo. Anthony Burguess, o autor de Laranja Mecânica, disse que ele era “inimitável e possivelmente louco”. T. S. Eliot disse que é um livro do qual nenhum de nós pode escapar. Talvez nenhum livro tenha sido tão ambicioso em tentar recriar o modo como pensamos, e ele é rico de alusões, trocadilhos, paródias e um uso absolutamente brilhante do fluxo de consciência.

O livro gerou muita controvérsia e um conjunto de processos por obscenidade chamados de Joyce Wars. O livro foi banido em vários países por causa do capítulo Nausicaa, e o primeiro país de língua inglesa em que ele esteve disponível foram os Estados Unidos, após o processo The United States vs One Book Called Ulysses, em que o juíz determinou que o livro não era pornográfico.

O romance tem um léxico de 30,030 palavras e é dividido em 18 capítulos. Ele conta as andanças de Leopold Bloom por Dublin no dia 16 de junho de 1904.

Em 16 de junho de 2014, 110 anos depois da passagem fictícia de Bloom pelas ruas de Dublin, eu também fui lá seguir seus passos, como fãs tem feito há 90 anos. Não foi meu primeiro Bloomsday, já que eu já tinha ido a várias comemorações aqui em BH mesmo, mas foi especial, por finalmente eu poder finalmente visitar os lugares do livro.

O dia envolve leituras públicas, dramatizações, pub crawls, sessões de cinema, entrevistas, caminhadas e, é claro, a visita dos lugares em que Leopold Bloom passou o dia. Muita gente se veste com roupas da época eduardiana e alguns lugares organizam até maratonas de leitura do livro inteiro, que duram até 36 horas.

Na véspera do Bloomsday, eu fui até North Great George Street, na casa de James Joyce. Lá dentro aliás, fica a casa de Bloom, que foi demolida há alguns anos, mas cuja porta foi preservada lá dentro. Eu visitei o museu e depois vi um teatro de rua baseado em Dubliners, o livro de contos do Joyce que estava fazendo cem anos. Os atores eram de um grupo de Boston, o The Here Comes Everybody Players.

Na rua, várias instalações comemoravam Joyce, como a cama de Molly Bloom e o banheiro externo da casa. Depois eles serviram o Bizarre Bloomsday Brunch, lanche gratuito para quem entrasse na fila com um ovo poché e torrada de espinafre.

Depois fui em um falso parlamento de 1915, em que a platéia discutia questões levantadas nos contos de Joyce e discutíamos se deveríamos estender o direito ao voto às mulheres ou se a censura deveria ser abolida. De noite fiz o Joycean Pub Crawl, em que fomos em pubs tradicionais com direito a leituras de Ulisses e Dubliners. Afinal, Dublin foi a primeira cidade a ter um Pub Crawl literário, então faz todo o sentido.

Para o Bloomsday, eu reservei um Walking Tour com o Pat Liddy, artista e historiador de Dublin muito conhecido pelos tours baratos e excelentes da cidade, pela qual ele é apaixonado. Além dos tours para ocasiões especiais, como para o Bloomsday e o St. Patrick’s Day, ele tem tours gerais da cidade e um tour literário.

Nós fomos em alguns dos lugares mais famosos do romance e para a vida de Bloom. Passamos pelo Freeman’s Journal, onde pessoas vestidas com roupas eduardianas faziam dramatizações, fomos ao Sweny’s Chemist, onde Bloom sente o cheiro de uma barra de sabonete de limão (hoje ele é um museu e você pode comprar o sabonete feito da mesma maneira há mais de cem anos) e a National Library, onde Dedalus apresenta sua teoria sobre Shakespeare. Acabamos na parte sul da cidade, onde o próprio Pat Liddy leu as últimas linhas do monólogo da Molly Bloom. Se você já quis ver um homem de setenta anos em roupas eduardianas gritando “to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.” no meio da rua, perdeu sua chance.

Depois do tour, voltei ao Davy Birne e pedi de almoço a mesma coisa que o Bloom comeu no 16 de junho original: um sanduíche de gorgonzola e uma taça de vinho da Borgonha. Estava completamente lotado, juro que eles devem vender esse lanche às centenas.

Depois do almoço, fui a Meeting House Square, um centro cultural super interessante onde apresentaram leituras e canções.

De noite, fui a uma sessão que combinava a versão cinematográfica clássica de Ulisses com Rocky Horror, ou seja, sempre que um personagem aparecia na tela, você deveria seguir as instruções. Por exemplo o Bloom aparecia, todos tinham que gritar cuckoo, quando a Molly Bloom aparecia, todos tinham que fazer um yesss bem orgásmico. Também houve um concurso da melhor roupa de época. O cinema tinha pequenas mesas, e eu acabei me sentando com uma viajante coreana e um casal de Dublin, que quando ficou sabendo que nós duas estávamos em Dublin pela primeira vez e tínhamos vindo para ver o Bloomsday, logo pegaram um pint de Guiness para cada e nos deram as boas vindas a Dublin. No final, teve uma festa de encerramento – eu tinha reservado tanto o cinema quando a festa online antes de chegar a Dublin.

Houve lugares que não consegui visitar em Dublin, tanto relacionados a Joyce como outros pontos turísticos. No Bloomsday, eu queria ter ido a Sandycove Martello Tower, onde Dedalus e Buck Malligan vivem. Eles servem um café da manhã de rins, que provavelmente eu pularia, haha. Também queria ter ido a Sandymount Strand, lugar de uma das cenas mais controversas do livro, onde eles organizam uma corrida anual, e ao Glasnevin Cemetery, onde Bloom vai ao enterro de Paddy Dignam e reflete sobre a morte. Dá até para ir de carruagem, como ele foi. Mas os meus dias já foram bem cheios e incríveis, então talvez essa fique para o próximo Bloomsday.

Se você se interessar pela festa, não deixe de ler os livros de Joyce. Eu li relaxada, pensando que nem especialistas entendem tudo de Joyce, então o que eu entendesse era lucro, e foi legal porque pude realmente aproveitá-los sem ficar preocupada em perder uma referência ou outra. Mesmo assim não é uma leitura fácil, mas é divertida, engraçada. Outro livro que pode ser legal é o Dublinesca, do Enrique Vila-Matas, em que o protagonista participa das pompas fúnebres para a literatura em pleno Bloomsday.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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