Ao contrário do que muitos pensam, o gueto não era o lugar onde judeus tradicionalmente viviam em Cracóvia. Eles habitavam o bairro de Kasimierz, até que foi permitido que morassem onde quisessem. Em Kasimierz ficam as sinagogas da cidade e o cemitério judeu, que compete com o de Praga pelo título de mais antigo da Europa.

Em uma das maiores atrações do Bairro, a Velha Sinagoga, você encontra uma exibição sobre a história dos judeus em Cracóvia. A maior parte do filme A Lista de Schindler foi filmada lá, embora a ação tenha se passado na verdade em outra parte da cidade.

Hoje Kasimierz é conhecido pelas atrações ligadas à população judia, mas também por ser o bairro mais popular para sair à noite na cidade. Lá você encontra muitos bares e comida barata. Plac Nowy, o centro do bairro, é cheio de mercados de pulgas. Não perca nos fins de semana.

Crédito: wikipedia commons

Já o gueto de Cracóvia fica do outro lado do rio Vistula, no distrito de Podgórze, e foi o lugar para onde os nazistas transferiram a população judia entre junho de 1942 e julho de 1943. Ele foi pensado como uma área para selecionar os judeus capazes de trabalho, e quando o ghetto foi liquidado, a maioria das pessoas lá dentro foi enviada para campos de concentração.

Dos 60 mil judeus de Cracóvia, a maioria já tinha sido enviada para outras áreas, e 15 mil foram obrigados a viver em um espaço exíguo que antes abrigava 3 mil pessoas. Muros foram construídos para impedir a comunicação com o resto da cidade.

O gueto tinha uma farmácia, chamada de Sob a Águia, de Tadeusz Pankiewicz. Ele é considerado um Justo Entre as Nações, o título dado pelo Yad Vashem, o Memorial do Holocausto em Israel, aos gentios que arriscaram as suas vidas para salvar judeus durante a guerra. Pankiewicz foi o único ariano a recusar uma oferta de se relocar para outra parte da cidade, e insistiu em continuar trabalhando no ghetto e fornecia remédios aos habitantes, frequentemente de graça. A sua farmácia se tornou um centro de resistência, e ele e seus funcionários se envolveram em várias operações clandestinas para tentar ajudar o povo do ghetto.

Em frente à farmácia fica uma praça que hoje é conhecida como Praça dos Mártires do Ghetto. Lá ficam quinze cadeiras de bronze, em lembrança do aniquilamento do ghetto, quando soldados nazistas destruíram todos os móveis das casas e os jogaram pelas janelas, procurando dinheiro escondido.

Cracóvia praça mártires do gueto

Lá perto fica a fábrica de Oskar Schindler, mais conhecido pelo filme de Spielberg. Schindler salvou a vida de cerca de mil e duzentos judeus durante o holocausto. A esse ponto, fica difícil diferenciar que parte da sua vida é verdade e o que é ficção. Ele frequentemente é retratado, na época em que chegou a Cracóvia, como um homem frívolo que só contratou judeus porque era mais barato. Mas parece que ele tomou a decisão de ajudar os trabalhadores da fábrica bem antes do que o filme coloca, definitivamente antes do extermínio do ghetto.

Schindler viajou várias vezes a Budapeste a partir de 1943, dando testemunho em primeira pessoa do abuso de judeus na Polônia. Antes do fim da guerra, ele e sua mulher Emilie conseguiram construir um sub-campo, onde ele podia preservar os judeus, e depois transferir a fábrica para a Morávia, na atual República Tcheca. Hoje ele é o único membro do Partido Nazista enterrado em Jerusalém.

Os objetos produzidos na fábrica e o pior presente de natal de todos os tempos

Por fim, na rua Pomorska fica o antigo quartel general da Gestapo. Aqui ficavam as celas em que membros da resistência foram presos, torturados e assassinados.

Hoje esses a farmácia de Pankiewicz, a fábrica de Schindler e a prisão da Gestapo formam a Rota de Lembrança da guerra e são parte do Museu de História de Cracóvia. Na Fábrica você vai ver uma exposição sobre Cracóvia entre 1939-1945 – com uma sessão dedicada, claro, a Oskar Schindler. A farmácia foi reconstruída como era segundo as memórias de Pankiewicz para contar a história desse lugar de resistência e memória. A prisão conta a história do povo da cidade em tempos de terror, tanto sob os nazistas quanto sob os comunistas. Você pode comprar um bilhete combinado para visitar os três lugares.

cracóva museu schindler 2

Se você está planejando uma visita a Auschwitz, ou simplesmente quer saber mais sobre o período, essa visita é imperdível. As exposições ajudam muito a entender a guerra na Polônia, mas também tem algo que é familiar de todas as guerras. Não tem como não ver as fotos de soldados nazistas sorrindo com os corpos de judeus enforcados e não pensar em Abu Ghraib.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

2 comentários

  1. Muito bem escrito! Já sabia do Museu do Schindler, mas gostei de aprender sobre a farmácia e a praça dos mártires!
    Também foi bom colocar a diferença entre o bairro judeu e o gueto, eu achava que era a mesma coisa, haha

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    1. Oi, Caio, tudo bom?
      Muita gente acha isso, até lá. O fato de que as cenas do gueto foram gravadas no Bairro Judeu confunde muita gente, porque eles reconhecem alguns lugares.
      Que bom que você gostou de ficar sabendo sobre os outros lugares do gueto. Acho que muita gente vai direto para a Fábrica, mas os outros museus são tão integados com ele que vale a pena visitar os três. E tem ingresso combinado, haha. Você está indo para lá?

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