Há algo de profundamente fascinante sobre as mães da praça de maio. Vê-las é ver um dos acontecimentos mais impactantes da história recente da Argentina. Elas são um símbolo de coragem, por, como dizia o Eduardo Galeano, terem se recusado a esquecer quando isso era obrigatório. Por outro lado, há algo de profundamente estranho em ir vê-las. Uma mãe procurando pelo filho não é uma atração turística, e não deveria estar em listas de “as dez melhores coisas para fazer de graça em Buenos Aires” do lado de alguns museus e igrejas.

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Quando eu fui ver as mães da praça de maio, eu tirei fotos, mas fiquei chateada com a quantidade de pessoas que ficava no caminho delas para bater fotos melhores. Achei muitas pessoas sem noção e intrusivas, e me lembrei do que várias pessoas falam sobre gente batendo foto em cerimônias religiosas. No livro A morte como efeito colateral, de Ana María Shua, que se passa em uma Buenos Aires distópica, chega-se ao ponto que as mães que morrem são substituídas por atrizes, e agora elas caminham todos os dias e até de noite, para serem incluídas nos tours de ônibus da cidade.

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Por outro lado, turistas que vão lá para vê-las e tiram fotos não trazem atenção para o fato de que os crimes cometidos na ditadura continuam sem punição?

30 mil pessoas desapareceram durante a ditadura na Argentina, 15 mil foram assassinados e mais de um milhão foram exilados. E desde 30 de abril de 1977 as mães lutam para ter respostas, e para que o que aconteceu não seja esquecido. O lenço nos rostos se tornou seu símbolo, e hoje está pintado no chão da praça. Elas receberam ameaças de morte, foram processadas e multadas para evitar que continuassem lá, foram chamadas de as loucas da praça de maio, suas líderes foram torturadas e assassinadas, mas até estão lá, toda quinta-feira às 15:30.

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Até hoje mães lutam para saber o que aconteceu com seus filhos, e avós para encontrar os netos sequestrados, alguns deles nascidos em prisões. Desde então, elas encontraram 97 netos, alguns dos quais foram viver com suas famílias biológicas, alguns foram criados pelos pais biológicos e adotivos, e outros se recusaram a conhecer suas famílias biológicas. Até hoje existem dúvidas, processos, pedidos de exames de DNA.

Existem alguns filmes ótimos sobre a luta das mães e avós da praça de maio, se alguém quiser saber mais sobre elas. A História Oficial, feito ainda durante a ditadura, conta a história de uma mulher de classe alta que começa a suspeitar que a criança que ela adotou ilegalmente pode ser a filha de desaparecidos. Cativa conta a história de uma adolescente que descobre ser filha de desaparecidos e tem que aprender a conviver com a avó que nunca conheceu e lidar com o que seus pais fizeram. Outro, Infância Clandestina, é contado pelo ponto de vista de um menino de 12 anos que mora na Argentina sob um nome falso com os pais, militantes contra a ditadura. É baseado na história real do diretor.
No final, acho que vê-las e tirar fotos é incrível e gera atenção para o fato de que essas mulheres até hoje precisam fazer isso por um motivo simples, o de que elas ainda não receberam respostas sobre os destinos dos filhos. Mas isso requer a mesma gravidade do que visitar o local de um massacre ou uma cerimônia religiosa. Assim, podemos apoiá-las com respeito. O que vocês acham? É algo que a gente deveria visitar e fotografar?

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

2 comentários

  1. Muito boa a reflexão! Acho um absurdo quem fica no caminho delas, ou tira um milhão de fotos com flash. Caralho, um pouco de noção faz bem.

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