Há 50 anos, no dia 4 de novembro de 1966, acontecia um dos eventos mais graves já ocorridos em Florença. O rio Arno inundou a cidade, submergindo livros da Biblioteca Nacional, quadros nos Uffizi, a praça da Senhoria, a Igreja de Santa Croce e vários dos outros pontos mais famosos da cidade berço do renascimento.

Crédito: Wikicommons

Um dos marcos desse desastre foi o absoluto despreparo em lidar com a tragédia. O governo sabia que isso podia acontecer, mas os cidadãos não foram avisados e não puderam se preparar, estocando comida e tirando carros das ruas nos bairros mais baixos. Não foram feitas tentativas de proteger o patrimônio incrível de Florença.

Crédito: Wikicommons

Quando a água baixou, os florentinos foram ver a Ponte Vecchio, um dos símbolos da cidade. Ela resistiu aos nazistas, quando foi a única ponte da cidade a não ser explodida (dizem os boatos que por ordens pessoais de Hitler), e resistiu também à cheia. Eles entenderam isso como um sinal de que a cidade seria reconstruída.

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Crédito: Stamp Toscana

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Logo depois, chegaram voluntários do mundo inteiro querendo ajudar a salvar tudo o que podia ser salvo. Os italianos os chamavam de “anjos da lama” (angeli del fango). Alguns permaneceram lá por anos. Segundo vários dos voluntários, havia um sentimento de que essa cidade tinha que ser salva. Hoje, no aniversário de 50 anos da inundação, ainda há obras do renascimento em reparo.

Crédito: Swietlan Kraczyna

Interior da Santa Croce  – Crédito: Editora Mondadori

Piazza della Signoria – Crédito: Italiani nel Mondo

Recentemente, centenas de terremotos abalaram o centro da Itália, dois deles de intensidade muito alta. Vilas nas regiões da Umbria e Marche foram completamente destruídas, incluindo Amatrice, lar do famoso molho Amatriciana. Promessas de reconstrução são feitas todo dia, mas os habitantes dessas cidades só precisam olhar um pouco para o sul para ver quão vazias elas podem ser. L’Aquila foi destruída por um terremoto há sete anos, mas o seu centro histórico ainda está em uma reconstrução difícil e marcada por corrupção com empreiteiras.

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L’Aquila hoje, foto do New York Times

Norcia e Amatrice – Crédito: New York Times

Esse país minúsculo, um pouco maior que o Rio Grande do Sul, tem terremotos, vulcões, super vulcões, tsunamis, inundações. É incrível que tanto tenha sobrevivido. Quantos séculos de terremotos, ausência de manutenção e furtos afetaram o Coliseu antes que ele fosse considerado algo digno de se preservar?

Miljenko Jergović termina seu livro mais conhecido, Sarajevo Marlboro, falando sobre os incêndios de bibliotecas durante o cerco de Sarajevo. Principalmente, ele fala do incêndio da Biblioteca Nacional, mirada pelos atacantes e que demorou 24 horas para queimar, enquanto os bombeiros e amantes de livros observavam sem poder fazer nada em uma cidade que não tinha água. Mil e quinhentos livros foram destruídos naquele dia. Muitos outros se queimaram em outros incêndios causados por bombas ou para que seus donos pudessem se aquecer e sobreviver a outro inverno. Na sua reflexão filosófica sobre isso, Jergović termina dizendo “Acaricie seus livros, gentil estranho, e se lembre de que eles são poeira”.

Eu pensei de cabeça quantas cidades e civilizações foram completamente destruídas, feitas pó, e quantas outras quase foram. Dubrovnik, Sarajevo, Mostar, Florença, São Petersburgo, Dresden, Atenas, Rotterdã, Messina, L’Aquila, Norcia, Amatrice. Quantas mais serão feitas poeira?

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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