Palermo tem uma má reputação. Isso tem a ver com alguns estereótipos que eu já mencionei, de como as pessoas ligam o sul da Itália à sujeira, violência e à máfia. Isso, e o fato de que o que não falta na Itália são cidades atrativas, tem mantido turistas longe da cidade. No máximo, eles chegam no aeroporto e vão logo para um resort. Então, em Palermo você tem a oportunidade de explorar uma grande cidade italiana sem multidões e com comida barata.

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Comecei a visita pela Fontana della Vergogna, literalmente a fonte da vergonha. O nome oficial da fonte é Fontana Pretoria, mas ficou conhecida assim porque as figuras estão nuas. Quando ouvi falar isso consegui até imaginar uma nonna com um véu negro falando “Mamma mia, que vergonha!”.

Ela foi construída em Florença em 1554, mas depois enviada para Palermo. A fonte foi um choque por um motivo: é um endereço nobre e uma grande atração turística, mas alguns dos prédios lá perto estão claramente abandonados.

Em seguida fui ver o Duomo. Ele é muito antigo e passou por mudanças e adições de cada povo que passou por Palermo, inclusive um período como mesquita sob os sarracenos, como você vê por uma coluna que ainda tem um trecho do Corão engravado nela.

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Logo depois fui ao Palácio Real dos antigos reis normandos da Sicília. No primeiro andar fica a Capella Palatina, conhecida pelos mosaicos. Ela combina uma variedade de estilos, o bizantino dos mosaicos, o normando na arquitetura e o árabe no teto e nas inscrições. Onde elementos da arquitetura árabe foram usados, principalmente em prédios religiosos, surgiram rumores de que quem mandou construir o lugar era um muçulmano disfarçado. Aí você vê que o Donald Trump pedindo o certificado de nascimento do Obama não inventou a paranóia.

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Eu já tinha ido em algumas catacumbas antes, e sinceramente é um passeio que não me afeta como afeta algumas pessoas. Já fui no ossuário de Sedlec em Kutná Hora, nas catacumbas de Paris, nas de Hallstatt, todas achei tranquilas. Mas as Catacumbas dos Capuchinos em Palermo foram talvez o lugar mais lúgubre em que eu já fui.

Os corpos eram mumificados e deixados lá (por um preço alto) com as roupas deles. Alguns deles estão em um estado melhor ou pior de conservação. Alguns estão em poses, como duas crianças em uma cadeira de balanço. Então você olha para o alto e vê uma criança de cinco anos, com roupas do século XIX, só que com apenas alguns pedaços de pele colados no crânio. Em alguns momentos eu pensava “é assim que os filmes de terror começam”.

A figura mais famosa é Rosalia Lombardo, a menininha na foto inferior à direita. Ela está em um estado perfeito de conservação após 90 anos, parece que está dormindo. Macabro.

Aviso, as imagens são fortes.

Créditos: site oficial

Também fui visitar o Teatro Massimo, o maior teatro da Itália. Você pode visitar como parte de um tour, mas pode valer mais a pena comprar um ingresso para uma apresentação.

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A igreja de Santa Maria dello Spasimo foi um dos lugares mais interessantes que visitei em Palermo. A antiga igreja inacabada foi por muito tempo lugar de prostituição e venda de drogas. Hoje, restaurada e ainda sem telhado, abriga shows de jazz.

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Créditos: site oficial

Também, é claro, fui visitar os mercados. O mais famoso é o Vucceria, cujo nome é uma corruptela do termo italiano para “vozeria”, ou seja, espere muita gente gritando e barganhando (embora a origem não seja confirmada e alguns apontam a hipótese mais prosaica que ele vem do francês boucherie). Os mercados a céu aberto tem origem na época sarracena, alguns até no nome, como o Ballarò.

Esse é o lugar para provar pratos típicos como o pan con panelle (sanduíche com uma massa frita feita de grão de bico).

O Giuseppe, dono do Vespa, albergue em que eu fiquei em Palermo, organiza tours pelos mercados se tiver gente o bastante interessada.

No final, achei que o estereótipo da sujeira não estava errado. Realmente a quantidade de lixo na rua era impressionante, e os monumentos não são tão bem cuidados quanto no norte. O transporte público também não funciona tão bem. Mas nem de perto a cidade merece a má reputação que tem, e a visita vale muito a pena.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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