Talvez uma das atitudes mais interessantes para que as pessoas se lembrem do Holocausto sejam as Pedras do Tropeço. Chamadas em alemão de Stolperstein, são pequenos memoriais àqueles que morreram no Holocausto. Elas têm algumas informações sobre cada pessoa, e são colocadas em frente ao lugar onde eles viviam. Ela são uma obra do artista Gunter Demnig, que as colocou no chão para que quem quisesse ler sobre as vítimas tivesse que se curvar em reverência. Hoje existem mais de sete mil em Berlim, dedicadas a judeus, ciganos, homossexuais, comunistas, pessoas com deficiência e outros perseguidos pelos nazistas. A idéia foi para a frente e hoje 60 mil espalhadas em quase todos os países da Europa.

As Pedras são colocadas direto no pavimento, então você não pode realmente tropeçar nelas. O nome é uma alusão a várias coisas: ao costume antissemita de dizer “um judeu deve estar enterrado aqui” quando a pessoa tropeçava na calçada, à expressão metafórica alemã que pode significar “problema em potencial” ou ao uso do verbo tropeçar para dizer “descobrir algo por acidente”. Além disso, faz referência ao fato de que quando cemitérios judaicos eram destruídos na Alemanha nazista, as pedras eram usadas em calçadas. O atelier do artista ainda produz cada Pedra do Tropeço à mão.

Nesse site, você pode achar a localização de todas as Pedras em Berlim.

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Um dia andando para o albergue, eu passei por acaso pela Sinagoga Nova. Achei curioso como aquele prédio, tão claramente uma sinagoga, tinha sobrevivido à guerra. A wikipedia me conta que a singagoga foi invadida durante a Noite dos Cristais, que ganhou esse nome por causa das janelas quebradas em singagogas e casas e lojas pertencentes a judeus. Além da destruição e dos incêndios nas propriedades, houve assassinatos, roubos e estupros. Os estupros foram punidos, não porque é um crime horrendo, mas porque era proibido ter relações sexuais com um judeu. 

Policiais impediram que membros do partido nazista colocassem fogo na Nova Sinagoga, ganhando por isso uma reprimenda. Nos anos seguintes, ela seria usada como depósito de uniformes.

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Ela foi construída em estilo neo-islâmico, inspirado em Alhambra, e só foi reconstruída depois da unificação. Hoje ela é usada como sinagoga e museu. Outra curiosidade interessante é que a rabina principal da sinagoga é, desde 2007, uma mulher.

A revitalização da sinagoga precedeu uma revitalização de todo o bairro.

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Do lado de uma sessão do muro de Berlim fica a Topografia do Terror, um museu no local onde costumava ficar a sede da Gestapo durante o regime nazista. O foco de uma das exibições permanentes é justamente a Gestapo e a SS, e os crimes que perpetraram por toda a Europa. Outra fala de propaganda e terror em Berlim entre 1943 e 1945. A terceira faz um tour histórico do lugar, inclusive passando pelo pedaço do muro.

 

A Praça Bebelplatz tem outro pequeno memorial bem interessante, aos 20 mil livros queimados lá em 10 de maio de 1933. Lá foram queimados os livros de autores judeus, como Freud, Einstein, Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Schnitzler, Kafka, Rosa Luxemburgo, mas também autores que falavam dos males da guerra e tinham uma filosofia diferente do belicismo de então, como Eric Maria Remarque e Hemingway, representantes de uma ‘arte degenerada’ como Maiakóvski, Babel ou James Joyce.

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Hoje, um pequeno memorial com estantes vazias, feito pelo artista Micha Ullman, lembra esse momento na história.

Uma pequena placa de bronze traz uma citação de Heinrich Heine, um dos autores que teve livros queimados: Onde se queimam livros, logo se queimarão pessoas.

Essa igreja, conhecida como Igreja-Memorial Kaiser Wilhelm, é muito interessante porque é testemunho de um lado da segunda guerra menos lembrado, o dos crimes contra os alemães. Os bombardeios aéreos conduzidos pelos aliados contra a Alemanha e seus aliados não eram dirigidos a bases militares, mas a civis, com o propósito de exasperar as populações locais. Isso é terrorismo de estado, e foi usado amplamente pelos dois lados durante a guerra. Tem gente babaca que gosta de falar como os alemães também sofreram com a guerra para relativizar ou diminuir o horror que foi o holocausto, e isso não é de forma alguma meu objetivo. Só quero lembrar que em nenhuma guerra, sob nenhuma circunstância, nós devemos aceitar que crimes sejam cometidos contra civis.

Em 1999, o escritor W. G. Sebald publicou On a natural history of destruction, em que ele fala sobre essa lacuna na memória, e convida escritores alemães a escrever sobre isso. Afinal, não é à toa que mesmo hoje a descrição mais lembrada do bombardeio de Dresden seja a de Matadouro Número 5, do Kurt Vonnegut. Um autor americano pode escrever sobre isso com mais facilidade que um alemão.

Por isso é interessante ver essa igreja, uma lembrança dos bombardeios, no meio de uma das avenidas mais célebres da cidade.

 

Essa é uma seleção de lugares interessantes em Berlim relacionados ao Holocausto. Você conhece mais algum interessante? Conta para a gente nos comentários.

 

Leia aqui a parte 1 e a parte 2 do post.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

2 comentários

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