Debaixo de Paris, existe uma extensa rede de túneis, antigas minas de onde foram retiradas as pedras para construção de muitos prédios da cidade. A aparência uniforme de muitos dos prédios de Paris vem daí. Dos cerca de 300 km, só uma pequena parte pode ser visitada. O resto é ilegal, e pode mesmo ser perigoso – já houve casos de pessoas que morreram nos túneis sem conseguir encontrar uma saída, e existe uma polícia para inspecioná-los.

Hoje, a parte aberta ao público dos túneis são as famosas Catacumbas de Paris. Eu fiz esse passeio, atravessando cerca de 2 quilômetros de corredores.

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E u desci o corredor para as catacumbas e andei alguns minutos antes de ver uma surpresa, miniaturas esculpidas na pedra das catacumbas. Diz a lenda – e a plaquinha – que foram feitas por um homem chamado Décurre, um mineiro, que as fez de memória em 1773, ou seja, antes que os ossos chegassem.

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Mais uns minutos e atravessei o famoso portal que diz “Pare! É aqui o Império da Morte”.

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Nas catacumbas, você passa por corredores de ossos, crânios arrumados de formas diferentes, placas que contam de onde esses ossos foram retirados, outras que contam um pouco da história do lugar. No início, os ossos vinham de cemitérios destruídos. Depois, durante o Terror, corpos foram mandados diretamente para cá. Então figuras como Robespierre, Marat ou Danton estão provavelmente enterradas aqui.

É um passeio meio macabro, e frequentemente propagandeado como não sendo para os fracos de coração. Mas em matéria de catacumbas, achei uma das mais tranquilas que já visitei. Nem se compara com as catacumbas de Palermo, por exemplo, que realmente são pesadas.

A história das catacumbas começou em 1774, quando vários cemitérios parisienses superlotados começaram a provocar uma série de problemas, inclusive desmoronamentos em que caixões entraram nos porões e adegas de pessoas que moravam perto desses cemitérios.

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Em Pure, romance de Andrew Miller, a destruição do maior deles, o cemitério de Les Innocents é romantizada e se transforma em uma parábola da Revolução Francesa. O engenheiro Jean-Baptiste Baratte é contratado para destruir o cemitério, e chegando lá percebe como ele envenena a terra, alterando a comida e o hálito das pessoas que moram lá. Ele nota como a igreja de Les Innocents bloqueia a luz do bairro. Ninguém sabia quantos corpos estavam lá, os boatos diziam que em um mês de peste foram enterrados 50 mil corpos. Ele encontra resistência da população do bairro para destruir a igreja e o cemitério, mas ainda acha que seu trabalho é um símbolo da modernidade, e que eles vão nomear praças em sua homenagem.

No romance todo há uma atmosfera de que algo está por vir. Eles vêem no teatro O Casamento de Fígaro, de Beaumarchais, uma peça sobre um nobre tentando exercer seu direito de primeira noite, um privilégio abusivo da nobreza. Obscenidades contra a rainha são escritas em prédios públicos.

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Sem encostar nos crânios, por favor

Quando esses cemitérios foram destruídos, médicos foram chamados para estudar os corpos, inclusive alguns que estavam bem preservados. O que se encontrou de gordura foi mandado para fábricas para fazer sabão (Tyler Durden aprova esse fato histórico).

A maioria das ossadas foi transportada e levada para túneis subterrâneos debaixo de Paris. Foi depois de um tempo que as Catacumbas se tornaram uma atração turística, e resolveram arranjar os ossos de uma forma bonitinha. Foi mais tempo ainda até que elas fossem oficialmente abertas ao público.

E o resto dos túneis? Apesar de não ter ossadas, eles também são chamados de catacombas, e tem uma história bem mais longa. É por eles que Jean Valjean anda em Os Miseráveis. Os communards mataram aqui monarquistas durante a comuna. Antigamente, Hemingway ia em bares que tinham entradas para os túneis, e os membros da resistência durante a Segunda Guerra usavam os túneis.

Mas hoje em dia, as antigas minas são o território de exploradores urbanos, ou, como são conhecidos nesse caso, cataphiles. Um grupo de exploradores urbanos conhecidos como les UX, dedicam-se a melhorar lugares de Paris aos quais governo restringiu acesso. Eles fizeram um cinema nos túneis, debaixo do Trocadéro, completo com bar e restaurante. A programação era principalmente de films noirs, mas incluía filmes como Um homem com uma câmera, do Dziga Vertov, e thrilllers modernos. Até hoje como o cinema funcionava é um mistério. Não se conhece quem são os membros do grupo exceto por um pseudônimo, Lazar Kunstmann. Kunstmann em alemão significa “homem da arte”.

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Foto tirada da Reportagem da reportagem da Wired

Outro grupo descobriu minas de água que formava piscinas naturais.

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Foto tirada do Blog Nessy Messy

De vez em quando aparecem notícias de festas lá embaixo.

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Foto tirada do site Nessy Messy

Essa não é uma atração turística, como eu disse, visitar esses lugares é ilegal e você precisa saber exatamente onde está para não correr riscos. Provavelmente você só vai conseguir acesso se morar por um tempo lá, e se der a sorte de conhecer um amigo que tem um amigo que sabe de um túnel… Senão, melhor ficar só nas Catacumbas mesmo.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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