No início do século XX, os judeus eram bem integrados na população húngara. Após a segunda guerra, só cerca de dez por cento sobreviviam. O país liderava uma estatística sombria: foi quem perdeu o maior número de habitantes em Auschwitz.

Antes da segunda guerra, os judeus compunham cerca de 5% da população da Hungria e 23% da população da capital, Budapeste. A proporção era tão alta que Karl Lueger, prefeito de Viena e notório anti-semita, chamava a cidade de “Judapest”. Os judeus de Budapeste construíram a Sinagoga Dohany, a maior e uma das mais bonitas sinagogas da Europa Oriental.

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Outras sinagogas que sobrevivem até hoje em dia são a sinagoga ortodoxa na rua Kazinczy e a sinagoga em estilo neoislâmico na rua Rumbach.

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Nos anos 30, o governo de inspiração fascista de Miklós Horthy aprovou várias leis que restringiam a vida dos judeus, em imitação às leis de Nuremberg. Elas restringiam o número de judeus em cada empresa, na imprensa e em hospitais. A maioria dos judeus perdeu o direito ao voto e casamento interraciais [sic] foram proibidos. Os judeus no campo foram deportados em massa para campos de concentração na Polônia.

Mas os nazistas não estavam satisfeitos com a cooperação húngara, e exigiram que Horthy cooperasse mais. Ele tentou resistir, mas logo tanques nazistas ocuparam Budapeste. A cidade até então tinha sido relativamente poupada de bombardeios, e era uma das capitais mais preservadas entre os países em guerra, mas logo a situação se inverteu e ela se tornou uma das capitais mais destruídas.

Crédito: wikicommons

Apenas alguns dias depois da invasão nazista, o alto-escalão do governo decidiu deportar todos os judeus húngaros para campos de concentração. Todo dia, 4 trens saíam de Budapeste levando 12 mil judeus para Budapeste. 90% deles eram assassinados na chegada.

O governo designou cerca de 2 mil casas onde os judeus deveriam morar, e elas foram espalhadas pela cidade em uma tentativa de impedir os aliados de bombardear Budapeste. Por causa da reação internacional contra as deportações, eles estabeleceram o chamado “gueto internacional”, que tinha casas sob a proteção de vários países neutros, como a Suécia, o Vaticano, a Suiça, Portugal e a Espanha.

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Crédito: wikicommons

Várias pessoas tentaram ajudar os judeus que seriam deportados. O suiço Carl LutzCarl Lutz lhes entragava passaportes suiços, o espanhol Ángel Sanz Briz e o italiano Giorgio Pelasca forjavam passaportes espanhóis, o policial Pal Szalai servia como conexão e fazia o possível para proteger o Gueto, o bispo Angelo Rotta entregava documentos e certificados de batismo falsos. Por algum motivo, quando as pessoas falam de pessoas que salvaram judeus durante o holocausto, sempre surge a vontade de compará-las com o mais famoso Oskar Schindler, que ganhou filme do Spielberg. Cada um deles salvou várias vezes o número de pessoas que Schindler salvou, e por isso foram reconhecidos como Justos Entre as Nações.

Mas o mais famoso e mais ousado deles era o sueco Raoul Wallenberg. Quando o governo sueco estava procurando alguém para ir a Budapeste e fazer o possível na situação, escolheram o empresário. Ele chegou à Hungria carregando um grande número de passaportes suecos, que deveria oferecer às pessoas em risco. Como cidadãos suecos, eles estariam protegidos de deportação.

Com dinheiro levantado pelo Comitê de Refugiados de Guerra da Suécia, ele alugou 32 prédios e os declarou território da embaixada sueca, tentando proteger as pessoas que viviam neles. Na frente deles, ele colocava cartazes como “Biblioteca da Embaixada Sueca” ou “Instituto de Pesquisa Sueco”.

Um deses prédios foi invadido por um grupo de inspiração fascista em janeiro de 1945. Eles forçaram os habitantes a caminharem até o Danúbio, a tirarem os sapatos, e então atiraram neles. Hoje, um memorial de sessenta sapatos de bronze na margem do rio lembra esse massacre.

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Segundo o depoimento de Sandor Arai, um dos motoristas trabalhando para o Wallenberg, ele um dia parou um trem que estava prestes a sair para Auschwitz e começou a entregar passaportes suecos para as pessoas lá dentro. Ele continuou mesmo quando policiais começaram a atirar em sua direção, embora Arai ache que eles erravam de propósito, impressionados com a sua coragem. Quando ele não tinha mais passaportes, ele mandou que as pessoas fossem retiradas dos trens, já que eram cidadãos suecos.

Ele começou a dormir em uma casa diferente toda noite, com  medo de assassinos enviados por Adolf Eichmann, o mesmo que depois foi julgado em Israel e levou a Hannah Arendt a escrever sobre a banalidade do mal. Quando o Exército Vermelho invadiu Budapeste, ele desapareceu. Os soviéticos clamaram que ele tinha sido assassinado em cárcere nos anos 50, mas nunca se soube ao certo o que aconteceu com ele. Até os anos 80, prisioneiros soviéticos relatavam ter conhecido um diplomata sueco que estava na prisão há muito tempo e surgiam rumores que ele ainda estava vivo. A mãe dele continuou procurando pelo filho até 1979, quando ela cometeu suicídio. Seu irmão e suas sobrinhas até hoje procuram saber o que aconteceu com ele.

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Foto do centro Raoul Wallenberg

No jardim da Sinagoga Dohány, um monumento foi feito em homenagem a Wallenberg, em que eles escreveram o nome de várias pessoas que salvaram ou protegeram judeus durante a guerra.

O pátio da sinagoga também tem um cemitério, embora seja muito raro que eles sejam construídos dentro de sinagogas. Isso porque ele abriga as vítimas do gueto, que tiveram que ser enterradas ali.

Chegar ao jardim é uma boa homenagem aos que morreram por causa do fanatismo alheio, e aos que arriscaram as suas vidas para tentar protegê-los.

Se você quiser visitar a Sinagoga Dohany, preste atenção em algumas coisas. É preciso estar vestido com modéstia, sem mostrar joelhos ou ombros, mas eles te dão algo se você não estiver. Um tour em inglês acontece várias vezes durante o dia e está incluso no ingresso, mas ele começa na sinagoga e sai para o pátio, então pode se juntar quando você quiser, mas depois de já ter visto a sinagoga. No final, não deixe de ver o pátio, o monumento de homenagem e o museu judaico.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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