Para estrear o Projeto Volta ao Mundo em Livros e Filmes aqui no blog, vou começar com o romance que eu li para o Marrocos. The Arch and the Butterfly, de Mohammed Achaari, tem uma premissa intrigante. O protagonista, Youssef al-Firsiwi, recebe uma carta com uma frase arrepiante “Alegre-se, Deus escolheu o seu filho para o martírio”. Com a visita subsequente da polícia, ele descobre que seu filho único, que ele acreditava estar estudando engenharia em uma das faculdades mais prestigiosas da França, foi morto lutando em um grupo fundamentalista islâmico no Afeganistão.

Youssef é um socialista, e na juventude passou tempo na prisão por isso, e não compreende como pode ter criado um filho fundamentalista. Enquanto a primeira reação de sua esposa, Bahia, é de desmaiar, a sua é de ter raiva. Ele não compreende como o filho pode ter feito algo tão cruel, vil e humilhante com os pais. Ele se sente entorpecido, e perde seu senso de olfato. Ele passa a ter conversas imaginárias com o filho, imaginando como ele poderia ter evitado que ele se radicalizasse.

Esses são dois dos temas mais fortes do livro, a dor da perda e as questões sobre o terrorismo, enquanto o medo da radicalização invade a sociedade marroquina. Isso é bem-vindo: a mídia ocidental se foca tanto nos atentados em países ocidentais, que é fácil se esquecer que a maioria das vítimas de atentados terroristas são muçulmanos, vivendo no Oriente Médio e no Norte da África. Mas o livro também fala muito do Marrocos, da corrupção, da gentrificação de Marrakech “selling the one thousand and one nights packaged in size and quantity to order”, da relação de Youssef com seu pai, um empresário que costumava ser bem sucedido, e agora está velho, cego, e passa os dias fazendo tours das ruínas romanas em Walili.

O arco e a borboleta do título são duas estruturas arquitetônicas: o arco era uma estrutura pensada pelo filho de Youssef para ligar Salé e Rabat, fazendo com que o rio entre essas cidades parecesse escorrer entre seus dedos. A borboleta é um horroroso prédio de luxo que tem uma festa de inauguração nababesca, um símbolo da corrupção ao violar as leis de Marrakech sobre a altura dos prédios e assim bloquear a vista para as montanhas Atlas. A arquitetura é muito usada nesse romance como símbolo do que acontece com a sociedade marroquina.

Não é uma leitura fácil, mas é outra grande descoberta que eu fiz por causa do prêmio de ficção árabe.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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