Em 1872, Claude Monet pintou um quadro que ele chamou de Impressão, nascer do sol. O crítico Louis Leroy imediatamente escreveu um artigo satírico sobre o quadro, dizendo que Monet e os outros pintores que gostavam desse novo estilo de pintar ao ar livre e pinceladas aparentes eram exatamente isso: uns impressionistas. A intenção era satírica, mas eles adotaram o nome.

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Créditos: wikicommons. Hoje no Museu Marmottan-Monet, que tem a maior coleção de obras desse pintor.

Acho essa história interessante porque depois de crescer vendo as pinturas dos impressionistas em caixas de chocolate, na casa da sua avó e em cartões postais, elas parecem unanimidades. Mas na época em que foram feitas, elas eram consideradas radicais.

No século XIX, a Academia de Belas Artes tinha um concurso de pintura anual, o Salon. Os artistas que eram premiados no Salon rapidamente recebiam diversas encomendas, e tinham sua fortuna feita. Os artistas que não seguiam os padrões frequentemente tinham seus trabalhos rejeitados em favor dos trabalhos mais tradicionais. Em 1863, eles rejeitaram o Almoço na Relva de Manet com palavras fortes, considerando obsceno um quadro que mostrava uma mulher nua perto de dois homens vestidos na moda da época, sem um motivo histórico. Uma mulher podia ficar nua se ela fosse uma ninfa, deusa, uma figura mítica. Uma mulher contemporânea, não.

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Créditos: wikicommons

Por causa do grande número de obras rejeitadas e da reação ao quadro de Manet, o Imperador Napoleão III criou um segundo Salon, o chamado Salon des Refusés (Salão dos Recusados). Ele acabou trazendo atenção para as novas tendências nas artes. O Salon des Refusés não foi feito de novo nos anos seguintes, apesar de pedidos, então os Impressionistas acabaram organizando as próprias exposições.

A primeira exposição permanente dos quadros foi só nos anos 20, quando o prédio de L’Orangerie foi transformado em uma galeria para guardar quadros impressionistas e pós-impressionistas, já na época criticado por ser pequeno demais. Monet pintou para o prédio 8 quadros enormes conhecidos como As Ninféias, que ocupam duas salas com paredes curvas e luz natural.

Ninféias Monet L'orangerie 1

Além disso, as salas de baixo contém quadros de Cézanne, Matisse, Modigliani, Picasso, Renoir, Utrillo e Sisley.

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Renoir. Créditos: wikicommons

Só nos anos 70 é que o governo construiu um museu dedicado ao período entre aquele retratado no Louvre e aquele retratado no Centro Pompidou. O arquiteto italiano Gae Aulenti foi o responsável por transformar uma estação de trem obsoleta no Musée d’Orsay, inaugurado em 1986. A maioria das obras estava antes no pequeno Jeu de Paume.

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Gare d’Orsay. Créditos: wikicommons

Museu d'Orsay Paris Relógio 1

Se você começar a visita do D’Orsay pelo primeiro andar, você vai ver obras de pintores que precederam os impressionistas, como Delacroix e Ingres, além de Manet, que nunca se identificou como impressionista, mas que eles consideravam o pai do movimento. Além do Almoço na Relva, outros quadros polêmicos ficam aqui, como o Olympia. Esse quadro teve o mesmo problema do Déjeuner: mostrava uma mulher moderna nua, não uma figura mitológica. Muitos críticos da época assumiram que ela era uma prostituta, recebendo flores de um cliente. Ele entrou para a Coleção do Estado francês depois de uma subscrição pública, organizada por Claude Monet. Ela foi para a Coleção do Museu do Luxemburgo, que abrigava os artistas contemporâneos, mas, por ser muito polêmica, nunca foi exposta lá.

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Créditos: wikicommons

Falando dos precursores, aqui também fica A Fonte do Ingres, um representante da cultura clássica e adepto de Rafael. Ele é um dos poucos pintores a ter obras expostas tanto aqui quanto no Louvre.

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Créditos: wikicommons

Uma das obras que mais geraram escândalo no museu foi uma pintura de Courbet intitulada A Origem do Mundo, censurada até pouquíssimo tempo atrás.

origine monde courbet
Créditos: wikicommons

Dizem que uma mulher só entra nas coleções de um grande museu se estiver nua – uma piadinha que ainda exprime a realidade nas artes, já que em 1989 só 5% das artistas expostas no MET eram mulheres, enquanto 85% dos nus eram de mulheres. Poucas foram as que superaram os milhões de obstáculos e conseguiram um pouco de fortuna crítica, e Berthe Morisot foi uma delas. Em O Berço, ela retrata a irmã Edma.

Berthe_Morisot,_Le_berceau_(The_Cradle),_1872

O quadro A Classe de Dança, de Degas, é outro que tem interpretações diferentes hoje em dia. A sua obsessão com bailarinas parece uma coisa tão fofa e romântica, mas ele dizia que se interessava por elas como por cavalos, pelos seus movimentos.

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Sisley, um dos líderes menos lembrados do Impressionismo também tem vários quadros aqui, como Inundação em Port-Marly.

Flood at Port Marly Alfred Sisley
Créditos: wikicommons

No segundo andar, ficam as obras de Monet e vários pós-impressionistas, como Cézanne, Gauguin e Van Gogh. Lá fica Gare St. Lazare, um dos quadros mais célebres de Monet, exibido independentemente em 1873.

Gare St Lazare Monet
Créditos: wikicommons

Outro famoso é o que retrata a Festa do 30 de junho de 1878 celebra uma festa dedicada “à paz e ao trabalho”, e não um 14 de julho, como frequentemente se pensa.

Rue Saint-Denisdu 30 juin 1878, 1878

Eles também tem um dos famosos auto-retratos de Van Gogh.

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Maçãs e laranjas de Paul Cézanne, um dos quadros preferidos e Virginia Woolf.

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O Musée de L’Orangerie é bem fácil de visitar, já que as filas não costumam ser longas demais. Já no D’Orsay, elas podes ser desumanas. Como eu comprei o Paris Museum Pass, eu furei fila em ambas, e achei que foi um dos motivos pelos quais ele valeu a pena para mim. Mas se você não pretende visitar outros dos lugares incluídos, e ele não vale a pena para você, ainda tem como furar fila. Você pode comprar ingressos combinados que incluem o D’Orsay no L’Orangerie (16 euros) ou no Musée Rodin (19,80 euros).

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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