Eu sei, eu estou roubando. O objetivo é ler um livro de cada país, mas para a Itália, eu escolhi uma tetralogia. No entanto, a Elena Ferrante é minha atual obsessão, então vou ter que falar dos Romances de Nápoles. Ler esses livros me fazia ter raiva da minha faculdade, do ônibus, dos amigos que paravam para conversar comigo. Eu precisava voltar para a Lila e a Lenù em qualquer segundo que tivesse disponível.

Vale a pena falar um pouco sobre a autora, para quem não conhece a história. Elena Ferrante é um pseudônimo. A autora sempre disse que precisava da anonimidade para escrever, e que já tinha feito pelos seus livros tudo o que era necessário: ela já os tinha escrito. A partir desse momento, eles não tinha mais necessidade dela. Apesar disso, sempre teve gente tentando descobrir quem ela era, e várias pessoas foram propostas como a “verdadeira Ferrante”. No ano passado, um jornalista publicou um trabalho assim que gerou muita polêmica, principalmente se ele tinha o direito de invadir a privacidade dela. Ele não ajudou, fazendo declarações de que ela estava pedindo e que era o que ela queria, e criticando cada detalhe que não parecia condizer com que se sabia dela por algumas cartas.

Romances de Nápoles - Elena Ferrante. Volta ao Mundo em Livros

Os romances começam quando a narradora, Elena Greco (Lenù), tem 66 anos. Ela recebe uma ligação do filho de Raffaella Cerullo (Lila), sua melhor amiga desde os seis anos de idade, falando que a mãe desapareceu. Elena não se surpreende, porque Lila fala em desaparecer há trinta anos. Rino diz que tudo da mãe sumiu, suas roupas, seus poucos livros, ela até se cortou das fotos de família. Lenù então resolve quebrar uma promessa que tinha feito e escrever sobre Lila, sobre a amizade das duas, e assim evitar que ela desapareça.

As duas nascem em um bairro pobre da Nápoles do pós-guerra, e crescem em um bairro violento, dominado pela Camorra. Elas se conhecem no primeiro dia de aula, em 1950. Lenù é uma aluna diligente, que procura o elogio da professora, enquanto Lila é terrível, e assusta os colegas. Todas as duas são muito inteligentes, mas só Lenù consegue continuar a educação além do primário.

Muitos já tentaram dizer em poucas palavras sobre o que essas novelas falam. Sobre a força da amizade feminina, ou sobre a amizade em geral, sobre toda uma geração do sul e as oportunidades perdidas para eles, sobre feminismo, sobre a história da Itália contemporânea, um bildungsroman.

E é claro, nos 60 anos em que esse romance se passa, vemos tudo isso, vemos o pós-guerra na Itália, os anos de chumbo, o movimento operário, os militantes marxistas e fascistas entrando em conflito. Vemos o preconceito contra os personagens do sul, a dificuldade de alguns deles para tentar se expressar em italiano, e não em dialeto. Vemos também o preconceito de classe, a dificuldade de superar a pobreza do bairro, de superar as dificuldades de ter crescido sem acesso a jornais, sem um quarto todo seu (a referência a Virginia Woolf é intencional). De crescer em uma cidade na costa sem ter visto o mar. E vemos os problemas que elas sofrem por uma cultura machista, as mães delas, descritas como acabadas, desgastadas por uma vida de esforços, a importância dada a um casamento, sobre o qual elas têm pouca escolha, a violência física, psicológica e sexual. Então, todas essas idéias estão certas, mas o romance é também em parte “puro prazer de contar histórias”, como um personagem fala em certo momento. É isso que o tornou tão popular, acredito, ser uma história envolvente e viciante, mas profunda, pesada.

Eu li que as famosas capinhas kitsch foram escolhidas de propósito, porque a autora não queria uma capa elitista, naquele estilo formal reservado aos grandes romances, mas um livro que parecesse chick-lit, que fosse vulgar. Ela queria que a capa mostrasse que aquele livro era a mistura de alta literatura e literatura popular.

É um romance difícil de ler, no sentido de que ele machuca. Eu sofri muito com a Lenù e a Lila. Mas, como dizia Kafka, não precisamos dos livros felizes, precisamos justamente dos que nos machucam. “Um livro deve ser como uma picareta diante do mar congelado dentro de nós”. Esse certamente foi.

 

Outros preferidos:

O Leopardo – Lampedusa

O Tédio – Moravia

Lo scialle andaluso – Elsa Morante

A lua e as fogueiras – Cesare Pavese

Caro Michele – Natalia Ginzburg

 

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

6 comentários

  1. Acabei de ler todos dela e não sei mais o que fazer da vida! Estou carente. Sinto muito a falta de conversar com as mulheres da Ferrante, que se sentem como eu me sinto, com as mesmas dores, as mesmas lutas. Você já leu os outros dela?

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    1. Ei, Gabi, tudo bom? Já li quase todos, só falta o volume de correspondências (Frantumaglia, ainda não traduzido no Brasil). Meu último foi o A Filha Perdida, me fascinou, é que antecipa muitos dos temas dos romances de Nápoles. Mas os livros dela são incríveis mesmo! Agora é reler e esperar que ela lance novos.
      Também sinto falta de conversar com as mulheres dos livros, é uma perspectiva muito única e nova que ela oferece. Comprei alguns outros escritores italianos que foram comparados à ela só para não ficar completamente na seca, hahaha

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      1. Ai, que inveja de você que lê italiano. Dá para ler os originais, e se ela lançar um novo você lê meses antes.
        A Filha Perdida é maravilhoso! Acho que é o meu preferido! Realmente, muitos dos temas voltam nos romances de Nápoles, também notei.
        Esse de cartas não conheço! Espero que publiquem por aqui também.

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