Esse era uma leitura meio óbvia para a Nigéria, mas não resisti. Já admirava a Chimamanda pelos Ted Talks O Perigo de Uma História Única e Sejamos Todos Feministas. Os seus livros também estão sempre nas listas de preferidos de pessoas com quem converso e foram escolhido pelo Leia Mulheres de várias cidades do Brasil. Então, minha escolha foi Purple Hibiscus.

A primeira frase do livro é “Things started to fall apart when my brother, Jaja, did not go to communion and papa flung his heavy missal across the room and broke the figurines on the étagère”.

Logo pensei no clássico romance de Chinua Achebe, the se chama justamente Things Fall Apart. No final do livro, tinha uma pequena entrevista com a autora em que ela o cita como uma influência, dizendo que ele era uma narrativa sobre um homem que tenta provar quão cristão ele é renegando o seu passado. Ela queria fazer uma versão moderna desse conto. O livro não deve, porém, ser reduzido a uma resposta a Achebe, como quiseram alguns críticos. A história é completamente diferente.

O livro conta a história de Kambilli, uma menina de quinze anos. No início do romance, vemos sua relação complicada com a família. O pai dela é um empresário de sucesso, que publica um jornal que é o único a criticar a ditadura que se implanta na Nigéria e conhecido pelas suas obras de caridade. No entanto, em casa vemos outra face dele, um homem abusivo que bate na esposa. Com os filhos, a princípio a violência parece mais sutil, pelo menos até uma parte em que descubrimos mais. Mas vemos como ele planeja cada segundo da vida dos filhos, sempre dedicados a rezar e estudar, sem que possam ter lazer ou a autonomia para decidir a hora de comer. Como sofrem uma pressão extrema para serem os melhores na escola e para se comportarem como civilizados [sic], falando inglês e sendo bons cristãos. Como ele mal permite que o avô os veja, por ele não ser católico. É o tipo de situação que quando alguém conta assim, em poucas palavras, parece apenas um pai severo e exigente, mas destrói a autoconfiança de Kambilli ao ponto de ela não conseguir manter uma conversa com uma menina da mesma idade, não conhecer o som do próprio riso e não conseguir dizer algo sem pensar se seu pai aprovaria. E, como muitas vítimas de abuso, ela procura incessantemente sua aprovação.

Uma visita de alguns dias à casa de uma tia começa a mudar tudo na vida dela e do irmão. Eles descobrem uma realidade de pessoas que vivem com muito menos, mas com alegria e descontração. Ela vê uma mãe que quer que os filhos sejam os melhores, mas estimula ao invés de ameaçar, que é católica, mas não acha que isso significa abandonar tudo que é tipicamente nigeriano. Isso também é importante no romance – na casa da tia é onde eles têm contato pela primeira vez com muito da sua cultura, seja os mistérios que eles vislumbram por acidente ou a música africana sempre tocando no quarto da prima (fiz uma playlist com alguns dos cantores que ela ama no youtube e no spotify).

No livro eles também comentam a situação política da Nigéria, que tinha acabado de mergulhar em um golpe militar. Apenas o jornal do seu pai faz um editorial desafiador, dizendo que o novo governo deve implementar um rápido retorno à democracia. Outros jornais falam que um presidente militar realmente seria o melhor, dizendo que os políticos estavam fora de controle e a economia estava uma bagunça. Outros focam na corrupção do governo civil, como se acreditassem que o militar fosse ser diferente. Além disso, o novo líder do governo tem relações com o narcotráfico, mas usa violência extrema com pequenos traficantes e não se pode falar nisso. Alguns trechos foram familiares demais.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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