O filme escolhido para o Chile foi um do qual gosto muito, pelo modo como ele traz questões complicadas como raça e classe para a discussão sobre as ditaduras militares da América Latina.

O filme Machuca, de Andrés Wood, passa-se no Chile de Salvador Allende, e conta a história de dois meninos. Um deles é Pedro Machuca, um menino de uma periferia pobre de Santiago, e o outro é Gonzalo Infante, de uma família de classe média-alta.

A história é contada pela perspectiva de Gonzalo. Um dia, um grupo de meninos chegam em sua escola particular inglesa, tendo ganhado bolsas para estudar lá. A iniciativa é de um padre da escola, e causa polêmica entre os pais. A mãe de Gonzalo chega a indagar, não é que os meninos novos sejam melhores ou piores, mas para que misturar maçãs com peras? Outro pai acha que não há motivo para expor seus filhos a “pessoas que ele não precisa conhecer”, outro acha que não há motivos para “dar” coisas para quem não lutou para consegui-las (não tenho certeza do que gente que pensa assim acha que crianças deveriam conquistar para ter direito à uma boa educação).

Mas Gonzalo e Pedro logo se tornam amigos. Gonzalo acompanha Pedro ao seu trabalho, onde ele vende bandeirinhas em manifestações, tanto de direita quanto de esquerda, visita a sua casa em um bairro pobre, onde o banheiro fica do lado de fora da casa, e desenvolve um crush por sua amiga Silvana. E tanto quando ele está lá quanto quando é Pedro que o visita, Gonzalo começa a perceber o significado de ter um privilégio de classe e raça, o que mesmo os seus pais não compreendem.

O filme tem uma clara inspiração no clássico Adeus, Meninos de Louis Malle, que se vê muito nas cenas da escola e em uma das cenas finais. E a escola é fortemente retratada como um micro-cosmos, em que as tentativas do Padre McEnroll de construir uma escola mais igualitária, com alunos independentes, tenta retratar o que a esquerda esperava do governo Allende. Os dois desabam, e os dois são ocupados e depois normalizados [sic].

As cenas da conclusão são assustadoras, e nelas se vê mais uma vez que o governo Allende e o golpe de Pinochet foram eventos completamente diferentes dependendo do lado do rio em que a pessoa morava.

 

Outros preferidos:

No – Pablo Larrain

O Clube – Pablo Larrain

Violeta foi para o céu – Andrés Wood

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s