Os Esterházys foram nobres húngaros importantes, condes, diplomatas, guerreiros, políticos. O seu palácio era conhecido como a Versalhes húngara. Eles são para os húngaros algo como os Kennedys, os Rotschilds e os Rockefellers, tudo em uma só família, segundo o próprio autor. Fora do país, são muito conhecidos como os patronos de Haydn. Durante o comunismo, perderam tudo. Péter Esterházy se voltou então à história de sua família para escrever o seu último romance, Celestial Harmonies.

Mas, como ele é o Esterházy, ele não tem interesse em fazer um história linear. Ele começa o livro com as “Numbered Sentences from the Lives of the Esterházy Family”, centenas de anedotas numeradas, todas sobre o mesmo personagem, “meu pai”. Usando apenas esse nome, ele conta histórias de família, sobre os Esterházy heróicos e os traidores, sobre suas relações com príncipes e imperadores, turcos, prisioneiros de guerra, aquele que matou a mulher para herdar sua fortuna, o que teve um ataque de gases em frente a tsarina Catarina (ela teria respondido “enfim um som sincero”), o que recebeu os russos, que ele chamava de bárbaros, no seu palácio. Outros “meus pais” são tirados de romances famosos, são figuras míticas, são paródias de Nabokov, Gombrowicz, Joyce, Musil, Sófocles, Calvino e dezenas de outros. Um é um dublê de corpo da Lady Di, um é o gato de Schröndiger.

 

“11 – I once had a distant, fascinating and intriguing father – let’s call my father by this name around whose crib there danced the last moon rays of the old century and the first shimmering light of a new dawn – the Evening Star, the Morning Star, the Star of the Even-Morn. That’s where our name comes from.“

 

“15 For fifty fillérs my father would eat a fly, for one florint you could take a picture of the cadaver in his tongue, for five florints and an apple (Starking), he’d bite a mouse in two. He never worked with outsourced mice, he liked to catch his own.”

 

“31 My father was a great warrior, an enemy commander, who had no peer in duel or warfare. (No peer in warfare, et cetera, I know! My mother.) Prince Rákóczi had great affection for him, as once he had slaughtered forty-two of the enemy in front of his very eyes. When the Prince was told that my father was planning to betray him, he refused to believe it.But he had to, because it was my mother who had denounced him, after he’d told her about his plan. My father ended up in front of a military tribunal, and the tribunal sentenced him to death for high treason. My mother didn’t shed a tear (…).”

 

“132 In the Eighteenth Century my father did away with religion, in the nineteenth century he did away with god, in the twentieth century, he did away with man.“

 

“152 My father, the man without qualities, slept with his older sister. Fuck it / him / her.”

 

“210 My father: a horse has four legs, and it still trips up. In the same way, the Danube has two banks, but they shot the Jews into it just the same.“

 

“237 Is my father capable of creating a boulder so large that he himself could not raise it?”

 

“266 (They found a clearing and, gun in hand, the two parties positioned themselves about thirty paces’ distance from each other in keeping with the custom of fighting a duel that many Hungarian writers, and pratically every Hungarian writer of aristocratic origin, have described in detail). I had an argument with a Stranger, father. It was nothing, really. I slapped him, and then he killed me in a duel near Kalugano. Please forgive me, my father wrote my grandfather in his last letter.”

 

“274 My father is just like Piero della Francesca’s father: metaphorical.”

 

A segunda parte se chama “Confessions of an Esterházy family”, em alusão às Confissões de um Burguês de Sándor Márai. Essa parte é mais linear, e foca em eventos importantes da vida do autor, seu pai, avô e bisavô, principalmente durante o comunismo. Essa parte pode ser descrita como o declínio de uma família – afinal, o autor disse uma vez que toda história de família depois de Thomas Mann é influenciada pelos Buddenbrook.

Esse romance foi publicado em 2001, mas não era cedo demais para dizer que é um dos maiores do século XXI.

 

Outros húngaros preferidos:

A Journey Around my Skull – Karinthy

De Verdade – Sándor Márai

O Companheiro de Viagem – Krúdy

A Book of Memories – Péter Nádas

Liquidação – Imre Kertesz

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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