Escrito nos anos 80, The Handmaid’s Tale ou Conto da Aia, de Margaret Atwood, teve um grande aumento nas vendas desde a eleição de Donald Trump. Também virou uma série incrível do Hulu, e é um dos livros mais populares nos grupos Leia Mulheres pelo Brasil.

Isso porque ele é um daqueles livros que parecem a cada dia mais atuais. Ele se passa em um futuro que a Margaret Atwood chama de ficção especulativa, ao invés de ficção científica ou distopia. Uma regra sua quando escrevia o livro foi que ela não podia colocar nada lá que não tivesse realmente acontecido em algum lugar. Ou seja, tudo lá pode acontecer, porque já aconteceu. Aliás, nós discutimos esse livro no Leia Mulheres de BH em abril, e em maio discutimos Lendo Lolita em Teerã, da Azar Nafisi, livro que conta sobre uma imensa perda de direitos em uma sociedade que se considerava avançada e ocidental.

O livro se passa na República de Gilead, que substituiu os Estados Unidos. Ela é uma teocracia baseada em uma interpretação bastante literal da bíblia, em que mulheres foram proibidas de ter possessões, aprender a ler ou ter relações não sancionadas pelo Estado. A sociedade também sofre com desastres ambientais e aparentemente uma grande quantidade de lixo nuclear, e por isso as taxas de natalidade caíram a níveis preocupantes. Também aprendemos que foi um falso ataque terrorista, em que o Congresso foi massacrado, que convenceu os cidadãos americanos que era preciso suspender a Constituição, e foi o primeiro passo para o que vemos agora.

A narradora é Offred. Antes ela tinha outro nome, que agora foi proibido, e é chamada assim porque ela literalmente pertence a Fred. Ela é sua aia, com a função de ter seus filhos, em uma cerimônia mensal em que ela se deita no colo da esposa dele para ser fecundada. A esposa, uma antiga televangelista anti-feminista, é supostamente infértil. Ou pode ser que seja Fred o infértil, mas agora é ilegal sugerir isso de um homem. A situação de Offred é baseada em alguns trechos do antigo testamento, como aquele em que Abraão tem um filho com Hagar, serva de sua esposa.

Outras mulheres em Gilead tem outras funções, e são todas designadas por um termo do antigo testamento e forçadas a usar as cores que simbolizam sua função. As aias usam vermelho; as Marthas, trabalhadoras domésticas, usam verde; as esposas usam azul, as esposas dos pobres usam as três cores; as tias, as doutrinadoras do novo regime, usam cinza. Se as mulheres não cabem em nenhum desses papéis, tem duas escolhas: podem se prostituir em bordéis para os homens da elite, porque claro que os homens podem escapar um pouco desse regime restrito, ou podem recolher lixo nuclear nas colônias.

Offred tenta sobreviver nesse regime extremamente repressivo e relembra sua vida de antes, em que tinha um marido e uma filha dos quais não sabe nada agora. Tem pouco que ela possa fazer para resistir, mas em uma situação tão extrema, resistir é lembrar de quando ela era uma pessoa, com um nome, e, acima de tudo, não deixar os bastardos te colocarem para baixo.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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