O início da história de Cinco Graças (Mustang no original), filme premiado da diretora Deniz Gamze Ergüven, tem um clima super leve, ao contrário do resto do filme. Lale (Güneş Nezihe Şensoy), uma menina de 12 anos, despede-se de uma professora, que está se mudando para Istambul, antes de encontrar as quatro irmãs do lado de fora. Elas aproveitam o início das férias andando com alguns colegas, e em um momento eles entram no mar e fazem briguinhas de galo.

Esse momento descontraído é interpretado como perversão pelas pessoas da cidade pequena, que as acusam de estarem se masturbando nos ombros de meninos. A partir daí, elas são proibidas de sair de casa, mesmo para ir à escola. Livros, celulares e computadores são retirados da casa. Elas são forçadas a usar roupas largas e “cor de merda”, que escondem os formatos de casa, e agora aprendem a cozinhar e costurar com as tias mais velhas. A avó e o tio que cuidam delas decidiram transformar a casa, como diz Lale, em uma “fábrica de noivas”.

O filme é centrado nas diferentes reações das cinco irmãs, Sonay (Ilayda Akdoğan), Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit Işcan), Nur (Doğa Zeynep Doğuşlu) e Lale, ao confinamento, às tentativas de casá-las e aos abusos que sofrem.

O filme evita maniqueísmos. É claro que a rebeldias das meninas, principalmente de Lale, e situação insustentável fazem delas as heroínas do filme aos nossos olhos. Mas a avó não é uma madrasta de filme da Disney, e fica claro que ela está fazendo o que acha melhor para as netas. Ela teve um casamento arranjado e aprendeu a amar seu marido, porque não aconteceria o mesmo com elas? Em um momento, Lale conta como só anos depois ela ficou sabendo de algo corajoso que as tias fizeram para ajudá-las.

Embora tenha recebido críticas fantásticas em outros países, na Turquia o filme foi mais polêmico. Enquanto alguns críticos o elogiaram muito, outros disseram que ele é inautêntico e reforça estereótipos ruins que o Ocidente tem sobre a Turquia. Na Turquia, as mulheres conquistaram o direito ao voto antes da França, da Itália, décadas antes da Suíça. Mas os governos recentes tem feito muito para diminuir as conquistas. O presidente atual, Erdogan, disse que igualdade de gênero vai contra a natureza, e recentemente houve uma tentativa do governo de passar uma lei dizendo que um homem que se casasse com a menina menor de idade que ele estuprou não deveria ser processado – a lei não foi votada por causa de protestos populares. O problema de meninas tiradas da escola e jogadas em casamentos arranjados é um que persiste em áreas rurais, como aquela em que o filme se passa, e não é completamente erradicado mesmo em Istambul. Por isso achei um filme muito relevante para discussões hoje em dia, e que vale muito a pena.

Escrito por Julia Boechat

Estudante de história. Já morei em Bologna, fiz trabalho voluntário em Praga e viajo sempre que posso. Sou viciada em livros e filmes e estou tentando ler/ver um de cada país do mundo.

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